Detalhes
Nome: OBRAS PAISAGÍSTICAS DE AUTORIA DE ROBERTO BURLE MARX – Paisagismo da via de acesso ao Aeroporto Internacional do Galeão, localizado na Avenida Vinte de Janeiro, Ilha do Governador
Bairro: Galeão
Endereço: Avenida Vinte de Janeiro s/n – Galeão, Rio de Janeiro – RJ
Esfera de tombamento: Municipal
Ano: 2009
Ato Municipal: Decreto nº 30.936 de 04/08/2009
Status: Tombamento provisório
Comentário: O paisagismo da Avenida Vinte de Janeiro, via de acesso ao Aeroporto Internacional do Galeão (atual Aeroporto Internacional Tom Jobim), na Ilha do Governador, foi tombado pela Prefeitura do Rio de Janeiro em 4 de agosto de 2009, pelo Decreto nº 30.936 (RIO DE JANEIRO, 2009). O tombamento, de caráter provisório, integra um extenso conjunto de obras de autoria do paisagista Roberto Burle Marx protegidas na cidade — mais de oitenta itens, entre jardins, praças, painéis e murais escultóricos espalhados por diferentes bairros cariocas (INSTITUTO RIO PATRIMÔNIO DA HUMANIDADE, [s.d.]).
Roberto Burle Marx (1909-1994) é considerado o criador do jardim tropical moderno. Nascido em São Paulo e radicado no Rio de Janeiro desde os quatro anos de idade, teve contato com a flora brasileira ainda jovem, ao visitar o Jardim Botânico de Berlim, na Alemanha, onde a família viveu entre 1928 e 1929. De volta ao país, formou-se na Escola Nacional de Belas Artes, então dirigida por Lúcio Costa, e realizou seu primeiro jardim em 1932, a convite do próprio Lúcio Costa. Em mais de sessenta anos de carreira, assinou milhares de projetos no Brasil e no exterior — entre eles os jardins do Ministério da Educação e Saúde (1938), do Aterro do Flamengo (1961) e do MAM (1954) —, marcados por formas sinuosas, grandes manchas de cor e uso intensivo de espécies nativas até então pouco conhecidas do grande público (INSTITUTO BURLE MARX, [s.d.]).
O projeto para a via de acesso ao Galeão foi elaborado em 1978 pelo Escritório Burle Marx, já então consolidado como estúdio próprio desde 1955, com a colaboração dos arquitetos Haruyoshi Ono e José Tabacow. Ao longo da avenida, canteiros longitudinais receberam agrupamentos de palmeiras, árvores e arbustos de mesma espécie, dispostos para valorizar suas características estéticas e compor com outros tipos de vegetação — solução que tornou a chegada ao aeroporto um dos primeiros cartões de visita paisagísticos da cidade para quem vinha de fora (INSTITUTO BURLE MARX, [s.d.]).
Essa obra, no entanto, não pode ser lida isoladamente do processo mais amplo de modernização do complexo aeroportuário que a antecedeu. As origens do Galeão remontam à década de 1920 (WIKIPÉDIA, “Galeão (bairro)”, [s.d.]): em 1923 o governo federal desapropriou terrenos na Ilha do Governador para instalar o Centro de Aviação Naval, e já nos anos seguintes acidentes geográficos inteiros — a praia das Flecheiras, o saco de Itacolomi — começaram a desaparecer sob os primeiros aterros e desapropriações do período Vargas (ILHA NOTÍCIAS, [s.d.]). O aeroporto entrou em operação comercial em 1952 (WIKIPÉDIA, “Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro-Galeão”, [s.d.]).
O marco que efetivamente deflagrou a segunda e mais drástica onda de aterros e remoções, contudo, foi institucional: em 1967 o Ministério da Aeronáutica criou a Comissão Coordenadora do Projeto do Aeroporto Internacional (CCPAI), encarregada de planejar simultaneamente a expansão do Galeão e do futuro aeroporto de Guarulhos. Em 1970 essa coordenação ganhou braço executivo com a criação da Aeroportos do Rio de Janeiro S.A. (ARSA). É desse ciclo, iniciado na década de 1960 e executado ao longo dos anos 1970, que resultaram a pista de 4.000 metros — ainda hoje a maior do país —, o Terminal 1 (inaugurado em 1977) e a própria Avenida Vinte de Janeiro, construída para dar acesso ao novo terminal (WIKIPÉDIA, “Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro-Galeão”, [s.d.]).
O custo humano desse processo recai sobre comunidades como Itacolomi e Flexeiras. Segundo relatos de antigos moradores, a região de Itacolomi manteve características rurais — casas baixas, ruas sem calçamento, forte vida comunitária — até o final da década de 1960 (TENREIRO, [s.d.]; ILHA NOTÍCIAS, [s.d.]). Foi somente então, sob a justificativa da construção do que a população local chamava de “aeroporto supersônico” (numa referência que se confirmaria anos depois, quando o Galeão passou a receber o Concorde), que toda a área foi arrasada: casas, igrejas e escolas foram demolidas, e os moradores, realocados à força para outros pontos da cidade. Hoje restam apenas vestígios do casario, visíveis por uma abertura no muro que separa a área civil da base aérea.
É exatamente esse processo — remoções justificadas pelo “interesse nacional” e apresentadas à população como o inevitável “custo do progresso” — que estrutura o livro Um lugar fora do mapa, de André Tenreiro, disponível no acervo do Centro de Referência da História da Ilha do Governador (CRHIG) (TENREIRO, [s.d.]). O autor demonstra que essa lógica não ficou circunscrita ao regime militar: em 2013, já sob outro discurso — o da preparação da cidade para grandes eventos internacionais, como a Copa do Mundo e as Olimpíadas —, a comunidade pesqueira de Tubiacanga, na porção ocidental da Ilha, ocupada por famílias desde o período imperial, foi ameaçada de remoção pela mesma razão de fundo: a expansão da infraestrutura aeroportuária. A pesquisa de Tenreiro, segundo relata a sinopse da obra, acabou por testemunhar o próprio conflito se materializar, com moradores propondo ocupar a pista de acesso ao aeroporto e a força policial intervindo para conter o protesto (TENREIRO, [s.d.]).
Não há registro de qualquer ligação direta entre o projeto paisagístico de Burle Marx, de 1978, e as remoções de Itacolomi e Flexeiras, que o antecederam. Mas ambos são, em sentidos opostos, expressões do mesmo movimento histórico: enquanto os aterros e desapropriações apagavam do mapa comunidades inteiras em nome da “modernização” do Galeão, o paisagismo da via de acesso construía, sobre esse mesmo território remodelado, a imagem pública e civilizada de um Rio de Janeiro moderno que se oferecia a quem chegava pela porta aérea da cidade.
Referências:
RIO DE JANEIRO (Município). Decreto nº 30.936, de 4 de agosto de 2009. Disponível em: leismunicipais.com.br. Acesso em: 06 jul. 2026.
INSTITUTO BURLE MARX. Aeroporto Internacional do Galeão. Disponível em: bmi.inwebonline.net. Acesso em: 06 jul. 2026.
INSTITUTO RIO PATRIMÔNIO DA HUMANIDADE (IRPH/PMRJ). Obras Paisagísticas de Autoria de Roberto Burle Marx. Rio de Janeiro. Disponível em: ipatrimonio.org. Acesso em: 06 jul. 2026.
TENREIRO, André. Um lugar fora do mapa. Rio de Janeiro: Matos, [s.d.].
WIKIPÉDIA. Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro-Galeão. Disponível em: pt.wikipedia.org. Acesso em: 06 jul. 2026.
WIKIPÉDIA. Galeão (bairro). Disponível em: pt.wikipedia.org. Acesso em: 06 jul. 2026.
ILHA NOTÍCIAS. A Ilha do Governador e os seus Aterros. Disponível em: ilhanoticias.com.br. Acesso em: 06 jul. 2026.
Juliana Barboza, RJ, 07/07/2026